
Caros leitores, religião e política sempre andaram de mãos dadas, como dois fiéis inseparáveis em uma procissão. Desde os tempos coloniais, quando o catolicismo dominava o Estado, até os dias atuais, em que líderes evangélicos ocupam cargos no Congresso. A influência da fé no poder é evidente. Mas quando essa relação se transforma em instrumento de controle político, a democracia corre risco. Durante o período colonial e imperial, a Igreja Católica não apenas influenciava a sociedade, mas fazia parte do governo. O imperador tinha o direito de interferir nos assuntos eclesiásticos por meio do Padroado, bispos e sacerdotes eram nomeados com aval do monarca, e os interesses do Vaticano precisavam se alinhar com os da Coroa. A religião ditava as regras do jogo, e qualquer oposição ao catolicismo oficial era reprimida. O resultado? Uma moral única imposta à força, sem espaço para diversidade. Pensemos que o Brasil foi o último país da América Latina a abolir a escravidão, em 13 de maio de 1888. Com a chegada da República, em 1889, o país rompeu oficialmente com essa fusão entre fé e governo. Houve avanço de outras crenças como o protestantismo, espiritismo e religiões de matriz africana, o que ajudou a consolidar um Estado laico. Pelo menos na teoria.
A Constituição de 1988 veio estabelecer que o Brasil é um Estado laico, sem religião oficial e imparcial diante das crenças. Mas essa neutralidade nem sempre se reflete na realidade. Sessões legislativas começam com orações “fervorosas”, bancadas religiosas tentam moldar políticas públicas e dogmas religiosos interferindo em diversos temas como educação e liberdades individuais. A questão não é impedir que religiosos participem da política, mas garantir que suas crenças pessoais não sejam impostas a toda a sociedade. Quando um grupo usa sua fé como justificativa para restringir direitos, a liberdade de escolha de milhões de brasileiros é colocada em xeque. Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um crescimento preocupante do fundamentalismo religioso na política. Líderes fazem campanha dentro de igrejas, usam versículos bíblicos como slogan e transformam eleições em batalhas entre o “bem” e o “mal”. Esse discurso messiânico não apenas distorce o debate público, mas coloca adversários políticos como inimigos da fé.
Um governo que usa a fé para justificar suas decisões não precisa prestar contas – afinal, quem ousaria questionar a vontade divina? O debate racional perde espaço, minorias são silenciadas e a liberdade religiosa é ameaçada. Precisamos decidir se queremos ser um país plural e democrático ou uma nação onde dogmas religiosos ditam as leis. Fé deve ser um direito individual, não uma ferramenta de controle. Caso contrário, corremos o risco de ver políticas públicas sendo decididas não com base em estudos e evidências, mas em profecias e revelações divinas. E isso, definitivamente, não é um bom caminho para o futuro. Se há algo que a história já nos ensinou, é que as sociedades que misturam religião e poder tendem a caminhar para o obscurantismo.
Thales Aguiar – Jornalista e escritor
Especialista em Ciência Política